Caiu a ficha: Dilma Rousseff afirma que impeachment
não partiu do DEM nem do PSDB
A presidente afastada Dilma
Rousseff (PT) se conscientizou que, ao contrário do que sempre disse, o
impeachment não foi obra do DEM nem do PSDB.
O PMDB é o grande inimigo do
governo do qual fez parte…
A presidente Dilma Rousseff concedeu
entrevista à revista Carta Capital.
Leia a íntegra da entrevista na publicação que está nas bancas.
Dilma Rousseff: Eu entendo
que algo vai se revelar de forma muito clara. Quem conduz este processo? A
questão é importante para perceber sua natureza, e o véu se levanta ao se
analisar a composição do ministério provisório, ligado ao controle de um certo
grupo do PMDB que sumiu do PMDB, capaz de transformar um partido de centro em
um partido golpista de direita. Temos o governo do Cunha. Que mais é do Cunha?
Os 217 parlamentares do centrão indicam André Moura, homem do Cunha. Podem
tirar o André Moura, indicarão outra pessoa ligada ao Cunha.
Carta Capital: André Moura, salvo engano, é réu no STF…
DR: Haverá dificuldade em achar
quem não é. Mas voltando. Desde 1988, nosso presidencialismo requer uma
coalizão, até aí nada de mais. É impossível um país desta envergadura e deste
tamanho ser dirigido sem uma coalizão. Ela foi de centro-direita, no período
FHC, ele precisava de três partidos para conseguir a maioria, às vezes de
quatro ou cinco para fazer os dois terços. Cada vez mais, pela fragmentação
partidária, pelo aumento dos interesses em criar partido dado o fundo
partidário, foi aumentando a quantidade de partidos e esse aumento se deu
dentro dessa ideia muito imprecisa de centro político, mas é a que eu tenho.
Lula já precisava de oito partidos para ter a maioria simples, em torno
de uns 10 ou 12 para ter dois terços e eu precisei, nos meus dois períodos,
cada vez mais de mais partidos. Aí depende de quantos e de quem. No grande
partido de centro, o que veio desde a Constituinte, emerge uma figura
tipicamente conservadora de direita, fundamentalista, com uma capacidade de
articulação razoável, com mecanismos de reprodução e controle de parlamentares
também razoáveis, e esse processo leva a uma imensa dificuldade na relação
Executivo-Legislativo, Eduardo Cunha.
Imensa dificuldade que não é determinada somente, por exemplo, pelos
três votos que ele nos pediu para não entrar com o processo de impeachment, chantagem
que o próprio autor do processo de impeachment, o ex-ministro do FHC, Miguel
Reali Júnior, chamou de chantagem explícita. A origem do impeachment não está
no PSDB e no DEM, não tinham força para tanto. Se na Câmara tivemos 145 votos e
eles 367, o Centrão hoje é muito significativo, é o maior grupamento… se você
fizer a conta, verifica que se estabelece um controle pela direita de 217
parlamentares no mínimo.
CC: Uma reforma política não resolveria o problema do nosso
presidencialismo?
DR: Reforma política é imprescindível. Recordam 2013? Propusemos uma
Constituinte a qual precisa do respaldo das instituições, a não ser que a rua
tenha a reforma como bandeira. Ora, a rua não tinha, vinha com uma fala mais
difusa. Talvez, em momento algum, como hoje se tenha percebido a premência da
reforma.
CC: O que a senhora acha do parlamentarismo, que volta e meia vem à baila?
DR: Acho muito difícil a compreensão do povo brasileiro. O
presidencialismo foi a única instância que permitiu fazer transformações dentro
da legalidade. Por quê? Porque a relação do voto popular com o presidente
implica uma discussão sobre rumos que não têm filtros, nem oligárquicos nem
regionais, nem de interesses econômicos. É uma relação quase direta. O Senado
tem alguma autonomia nos espaços estaduais, mas a melhor oportunidade para a
relação transformadora no Brasil por meio de eleições diretas foi o
presidencialismo. O parlamentarismo do Brasil tenderia a ser oligárquico,
porque teria enorme influência nos poderes localizados. Isso vem desde o
império, a meu ver.
CC: O que explicaria o fato de a senhora ter tido como companheiro de
chapa alguém que na interinidade lançou uma agenda tão distinta daquela que foi
vitoriosa em 2014. São os problemas do nosso sistema político sobre os quais falamos
há pouco aqui ou foi um processo exterior que tem a ver mesmo com tomada de
poder?
DR: Já vi o PMDB como partido de centro e acho que segmentos dele ainda
são, mas uma parte do PMDB foi de fato capturada para uma posição conservadora
de direita. Perdão, é falar mal dos conservadores, na realidade são golpistas
de direita. Acho que houve um processo dentro do PMDB de reagrupação de forças,
de tal forma que hoje a hegemonia dentro do partido é de Eduardo Cunha e seu
grupo. Mesmo afastado pelo Supremo, ele continua dando as cartas na Câmara e no
governo. E mesmo no Senado através de Romero Jucá.