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sábado, 12 de abril de 2014


                           
     Um motorista de ambulância que deixou sua cidade no interior com o sonho de estudar Medicina e voltou oito anos depois como médico formado. O caso aconteceu em Lucrécia, município de pouco mais de três mil habitantes na região Oeste do Rio Grande do Norte, onde nasceu Ricardo Dantas Duarte, de 39 anos. Filho de um agricultor e de uma merendeira, o protagonista da história atualmente trabalha como médico do Programa de Saúde da Família (PSF), coordena uma unidade de urgência da cidade, dá plantão em municípios vizinhos e ainda arruma tempo para atender pacientes em um consultório montado na própria casa.

                           Para Ricardo, o papel do médico vai além da consulta (Foto: Arquivo pessoal/Ricardo Dantas)

                    Para Ricardo, o trabalho do médico exige amor
                         (Foto: Arquivo pessoal/Ricardo Dantas)

   "Disseram que era loucura", conta Ricardo ao lembrar do plano para se tornar médico. O então motorista de ambulância deixou a mulher e a filha de dois anos e vendeu os únicos bens que tinha - uma casa e um carro - para fazer o curso na Bolívia. Na cidade de Cochabamba morou de favor em um quarto nos fundos da casa de um conhecido. "Era do pai de um amigo que conheci em Lucrécia. Um médico boliviano que me incentivou a correr atrás desse sonho", explica Ricardo, que também é formado em Pedagogia.

    Ricardo chegou à Bolívia no segundo semestre de 2003 em meio a uma série de protestos que culminaram na derrubada do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. "O país estava quase em guerra civil. Tocaram fogo no ônibus em que eu estava e fugi pela janela. Precisei andar 13 quilômetros até a cidade", lembra o médico, que começou ali uma vida de oito anos na Bolívia, sem nunca ter deixado de visitar a família em Lucrécia, para onde viajava semestralmente de trem e ônibus. "Não dava para pagar viagem de avião", diz.

     O curso foi terminado em 2010, mas Ricardo permaneceu na Bolívia trabalhando. O retorno definitivo a Lucrécia aconteceu no ano seguinte. "Fiz a revalidação do meu diploma e comecei a trabalhar na cidade", conta o médico, que começou a se interessar pela profissão quando transportava diariamente os pacientes. "A gente acompanhava os casos e via o abandono das pessoas. Isso foi gerando uma indignação em mim. Quando você procura um médico não está só atrás de uma cura científica. Não custa nada um pouco de carinho", acrescenta.
Ricardo montou consultório dentro de casa para receber pacientes em Lucrécia, RN (Foto: Arquivo pessoal/Ricardo Dantas)


    Formado médico, Ricardo levou ao pé da letra o que considera o ideal tratamento a um paciente. Sempre com um sorriso no rosto, o ex-motorista de ambulância atende gratuitamente pacientes mais humildes na sala de casa. Dos trabalhos no PSF e plantões em cidades vizinhas ele tira o sustento da família. Do caminho que teve de percorrer para realizar o sonho, o médico guarda um conselho. "Para quem nasce na pobreza, a única forma de ser rebelde é estudar", afirma.
Espera sem fim
     Enquanto Ricardo passava dificuldade na Bolívia, sua mulher, Maria da Conceição do Nascimento Duarte, 37 anos, dava aulas de matemática para ajudar o marido fora do país. Com a venda da casa e do carro para financiar a viagem, a professora foi morar na casa dos pais de Ricado. "Quando ele me falou o que queria fazer, disse 'se é seu sonho vou apoiar', e fiquei aqui com nossa filha", afirma.

    Apesar de ter apoiado a ideia, a professora confessa: "não foi fácil". Conceição conta que a comunicação era difícil, porém não se abalou. "Ele vinha de seis em seis meses, firme e forte. Matávamos a saudade", conta. Quando o marido retornou com o diploma de médico, Conceição viu que o esforço valeu a pena. "Tive uma sensação de missão cumprida", lembra.


.Do G1/RN


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